Dá pra ter milhão de play e receber a metade, ou receber errado, por causa de um nome escrito de dois jeitos ou de um cadastro que você nunca fez. A parte que ninguém posta no story, distribuidora, ISRC, UPC, split e direito autoral, é justamente a que decide se o dinheiro do seu trabalho chega até você. É o assunto mais chato desta série e o mais importante. Vai com calma, porque cada tópico aqui é grana de verdade.
Todo som que você lança gera dois dinheiros
Essa é a informação que muda a vida financeira de um artista, e quase ninguém explica com clareza. Cada música gera dois direitos diferentes, que são pagos por caminhos diferentes. Um é o fonograma, que é a gravação em si, o áudio que tocou; quem paga por ele são as plataformas de streaming, e esse dinheiro chega até você pela sua distribuidora. O outro é a obra, que é a composição, a melodia e a letra, não importa quem gravou; quem paga por ela é o direito autoral de execução pública e o publishing, e no Brasil o centro disso é o ECAD.
A distribuidora, por onde o som sai e a grana volta
Você não sobe direto no Spotify nem no Apple Music. Quem leva seu som pras lojas é a distribuidora. Ela recebe o dinheiro de fonograma das plataformas e repassa pra você. Tem modelos diferentes: umas cobram uma taxa por ano e te deixam com cem por cento dos royalties, outras são de graça mas ficam com uma porcentagem de tudo. Nenhum modelo é o certo, depende do seu volume, mas você precisa saber o que está aceitando.
Antes de escolher, compara quatro coisas. Quanto ela fica, taxa fixa contra porcentagem. Se ela te dá acesso ao Spotify for Artists e ao Content ID do YouTube, porque sem isso você não faz o pitch e não monetiza o uso do seu áudio no YouTube, e isso é essencial. Com que frequência ela paga e qual o valor mínimo pra sacar. E se você pode levar os seus códigos, o ISRC e o UPC, embora, caso um dia troque de distribuidora sem perder o histórico da faixa.
Fica esperto com alguns sinais num contrato: exclusividade longa sem cláusula de saída, a distribuidora querer uma parte da sua composição além da gravação, falta de clareza sobre de onde vem cada pagamento, e taxa de saque tão alta que come o pouco que você recebe no começo. Lê o que você assina, mesmo o “grátis”.
ISRC e UPC, as impressões digitais do som
Todo stream é contado por um código, não pelo nome. Se o código está errado ou faltando, o play acontece mas o pagamento pode não achar a sua conta. São dois códigos e eles não são a mesma coisa. O ISRC identifica uma gravação específica, e cada faixa tem o seu; se você lança a original, uma versão ao vivo e um remix, são três ISRC, porque são três gravações. O UPC é aquele código de barras que identifica o lançamento inteiro; um single tem um UPC, um EP tem um UPC, um álbum tem um UPC, e cada faixa lá dentro continua com o ISRC dela.
Muita distribuidora dá ISRC e UPC de graça, só que atrelados a ela. Ter os seus próprios, registrando você mesmo, protege o seu histórico de dados quando você troca de plataforma e facilita recuperar dinheiro que ficou perdido por causa de código errado, aquilo que chamam de caixa preta, grana arrecadada que ficou sem dono identificado. No começo o código da distribuidora resolve, só saiba que ele pertence ao mundo dela, não ao seu.
Metadados, os detalhes por onde o dinheiro vaza
Metadado é toda a informação que vai junto da faixa. Parece burocracia, mas cada campo errado é um cano furado por onde escorre dinheiro ou público. O erro mais caro é o nome do artista escrito de jeitos diferentes: “MC Fulano”, “Mc Fulano” e “MCFulano” viram três artistas distintos pro sistema, seus plays se espalham entre esses perfis, você perde seguidor concentrado e confunde o algoritmo. Escolhe uma grafia e usa ela igualzinha pra sempre. O segundo erro é não informar quem compôs: se o campo de compositor vai vazio ou errado, o dinheiro de publishing da obra não tem pra quem ir. O terceiro é o feat cadastrado fora do padrão, que faz a faixa não aparecer no perfil do artista convidado, e aí você perde todo o público dele que ia te descobrir por ali.
Split, decidido antes de a briga existir
Split é a divisão da composição entre quem compôs, em porcentagem. É ele que decide os royalties de publishing, o dinheiro da obra, que é separado do dinheiro da gravação. O streaming junta os dois no bolso do ouvinte, mas eles são calculados e pagos por caminhos diferentes.
A regra de ouro é definir o split na hora que a música nasce, por escrito, com todo mundo junto. Enquanto ninguém está ganhando, todo mundo concorda com qualquer divisão. A briga aparece exatamente quando a faixa estoura e o dinheiro entra. Resolver antes é uma conversa de cinco minutos, resolver depois é advogado.
O beatmaker que fez a base normalmente entra na divisão da composição, porque a melodia do beat é parte da obra, além de qualquer combinado sobre a gravação. Deixa isso no split sheet também, pra não virar disputa lá na frente.
No Brasil, como receber pela sua composição
A obra gera direito por execução pública, ou seja, toda vez que a música toca em rádio, TV, show, festa, estabelecimento comercial e também no streaming. Quem arrecada e distribui esse dinheiro é o ECAD. Só que o ECAD não paga direto pro compositor solto: você recebe estando filiado a uma associação que faz parte do ECAD, e existem várias, como Abramus e UBEM, entre outras, e tendo as suas obras cadastradas nela.
O caminho é curto. Você se filia a uma associação como compositor, o que costuma ser de graça e é o que te liga ao ECAD. Cadastra cada obra na associação, com título, compositores e os splits, e é aqui que aquele split sheet vira dinheiro, porque as porcentagens que você definiu são as que a associação usa pra dividir. E mantém os dados batendo com o que a distribuidora mandou, os mesmos nomes de compositor, a mesma grafia, porque qualquer diferença trava o pagamento.
Por que isso é vida ou morte pra quem é independente: se você compõe suas próprias músicas, que é a regra no rap nacional, e nunca se filiou nem cadastrou as obras, o dinheiro de execução pública da sua letra está sendo arrecadado e simplesmente não chega até você. Não é troco, com o tempo é bastante, e é um fluxo totalmente separado do que a distribuidora paga. Cadastrar fecha esse vazamento.
Dúvidas que sempre chegam
Qual a diferença entre ISRC e UPC? O ISRC identifica uma gravação, cada faixa tem o seu. O UPC identifica o lançamento inteiro, o single, o EP ou o álbum. O UPC é a caixa, os ISRC são o que está dentro.
Eu já recebo pela distribuidora. Preciso mesmo mexer com ECAD? Precisa, se você compõe. A distribuidora paga a gravação. O ECAD, pela sua associação, paga a composição, que é um dinheiro separado. Sem filiação e sem cadastrar as obras, essa parte não chega até você.
O beatmaker entra no split? Em geral sim, na parte da composição, porque a melodia do beat é parte da obra. O certo é combinar e registrar isso no split sheet junto com todo mundo, antes de lançar.
Vale a pena comprar meus próprios ISRC e UPC? Pra quem leva a carreira a sério, vale: você mantém o controle dos dados ao trocar de distribuidora e facilita recuperar dinheiro perdido. Começando, o código da distribuidora quebra o galho, só tenha consciência de que ele é atrelado a ela.
Com a base de pé e o som pronto, o que falta é a divulgação certa. Veja como botar seu lançamento na frente de quem escuta rap.



