Após quase dois anos de recolhimento, período marcado por batalhas pessoais silenciosas, Emicida voltou aos palcos com a estreia da turnê “Emicida Racional MCMV”, realizada na última quinta-feira (30) no Espaço Unimed, em São Paulo.
Às 22h40, o rapper abriu o espetáculo com “Essa É Pra Você Primo”, homenagem ao DJ Primo, em um show estruturado em atos bem definidos. A apresentação construiu uma narrativa íntima, mas também coletiva, ao costurar sua trajetória com a de outros nomes do rap. Isso ficou evidente na junção de “Sonho Meu”, de Xis, com “Ismália”, seguida de uma mensagem política no telão dedicada às vítimas de violência no Irã.
O repertório trouxe densidade não apenas pelas músicas, mas também pela carga política, com vídeos que questionavam como o sistema sufoca o potencial do povo brasileiro. A primeira metade mergulhou em sombras, enquanto a segunda celebrou fraternidade, com participações de Rashid, Projota e Edi Rock, reafirmando laços históricos e reverências à ancestralidade.
Um dos momentos mais emocionantes foi a reunião dos Três Temores para cantar “Nova Ordem”, levando o público às lágrimas. O terceiro ato trouxe purificação e esperança, com faixas como “Papel, Caneta e Coração” e a oração de “Santo Amaro da Purificação”, simbolizando passagem de gerações e luz.
A catarse máxima veio com “Mãe”, marcada pela recente perda de Dona Jacira. Emicida chorou junto ao público, enquanto o telão exibia a expressão quéchua “Tupananchiskama” (“até que a vida volte a nos reencontrar”). O coro de 8 mil pessoas transformou o luto em tributo histórico.
O encerramento reverenciou referências como Quinto Andar, Kamau, Marechal e SP Funk, além de unir “Homem na Estrada” (Racionais MC’s) e “Ela Partiu” (Tim Maia) ao hino “Levanta e Anda”. Finalizado com o samba dos Prettos, o espetáculo reforçou a ideia de continuidade e responsabilidade com o presente e o futuro.
Antes de se despedir, às 01h40, Emicida recitou uma poesia que sintetizou o espírito da noite: “Todo esse trampo é feito por seres humanos e isso é inegociável.” A estreia provou que o Zica voltou — mais forte.






